08 julho 2012

O que mudou no meu projeto de pesquisa



Cristiane Basques da Cunha Silva
Mestranda Ciência da Informação - UNB/2012
Disciplina: Metodologia em Ciência da Informação
Professores: Sofia Galvão e André Porto

Quando da definição de quais disciplinas cursar neste semestre me deparei com a Professora Sofia na secretaria do PPGCINF e perguntei sobre a proposta da disciplina. Logo me convenci que Metodologia em Ciência da Informação deveria ser cursada.
Cheguei achando que o meu projeto era merecedor de alguns ajustes e saí entendendo que deveria ser totalmente reformulado. Logo no primeiro dia de aula fui questionada sobre o problema da minha pesquisa e fui desafiada a reformular a pergunta começando não com o “porque”, mas sim com o “qual” e então saiu um “o que?”. O meu problema parecia estar tão claro e objetivo!
Então começamos a disciplina sendo alertados que “não iríamos mudar o mundo”, nossa pesquisa deveria entender o fenômeno. Então veio a dúvida: o que é um fenômeno? Confesso que levei muitas aulas para entender qual era realmente o fenômeno da minha pesquisa e acho que consegui.
Assim, do problema passamos para o objeto geral, objetivos específicos, tipo de pesquisa, hipóteses, pressupostos, referências, experiências, trabalhos, bancas, orientações e sugestões. Foram versões e versões apresentadas para avaliação e que voltaram com muitas observações. Não posso esquecer uma dica que ficará gravada para sempre em minha mente: “os dados explicam”, “os dados sugerem”, “segundo Fulano”.
As rodadas realizadas para apresentação dos projetos dos demais mestrandos iam me trazendo acalanto, pois além de acompanhar a estrutura e justificativa de cada proposta, percebia que as dúvidas eram lineares, assim como as ajudas dos colegas.
Sai Sofia entra André, e agora? Nunca pensei que pensar ciência dava tanto trabalho, mas que pensar ciência era não pensar no obvio. A frase “vocês precisam se entender como pesquisador, como cientistas” me levou a refletir porque estava realmente fazendo ciência!
Tomanik apud André foi norteador, esclarecedor, André apud André foi desconstruidor, orientador, questionador: Por quê? Como? Onde? Para que? Nessas horas minha mente era literalmente obrigada a funcionar e quando respondia “a” Ele perguntava novamente se não seria “b” ou “c” e porque não “d”? Foram muitos blogs, e-mails, muitas informações, elucubrações, ideias, discussões, dicas, Coríntias (isso a gente pula)! Foi majestosamente uma oportunidade ímpar de aprender a pensar além do que se vê!
Ao final de tudo olhei para trás para trazer à tona a primeira proposta apresentada na disciplina para comparar com a atual e percebi que estou com um olhar mais criterioso, mais engajado, mas pesquisador e porque não mais cientista.
Obrigada aos mestres pelo conhecimento e sucesso a todos os parceiros da disciplina.

11 junho 2012

Acesso à informação, sustentabilidade e relações de gênero¹


Reflexão livre sobre a temática discutida pela mesa 04 do Encontro Latino Americano de Mulheres, sobre "Acesso à informação, sustentabilidade e relações de gênero", sob a ótica da Ciência da Informação, problematizando questões específicas do próprio projeto de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade de Brasília, como atividade da disciplina Metodologia em Ciência da Informação.

Aluna: Cristiane Basques da Cunha Silva – Mestranda/UNB

Sustentabilidade, segundo a enciclopédia livre, é a habilidade de sustentar ou suportar uma ou mais condições, exibida por algo ou alguém. É uma característica ou condição de um processo ou de um sistema que permite a sua permanência, em certo nível, por um determinado prazo. Também pode ser definida como a capacidade do ser humano interagir com o mundo preservando o meio ambiente para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras.
Este foi o tema central debatido na mesa 04 do Encontro Latino Americano de Mulheres, sobre "Acesso à informação, sustentabilidade e relações de gênero", realizado no dia 06.06.2012 no Prédio da Fio Cruz na Universidade de Brasília, que contou com a participação de um corpo de profissionais femininos conhecedores da matéria, cuja mediação distinta ficou a cargo do Professor Dr. André Porto.
Informação como forma de comunicação, transformação, uso e conhecimento está cada vez mais disponível em um poderoso veículo de utilidade pública que é a internet, que tem como um dos objetivos informar, educar e proliferar a cultura, mas também possibilitar a liberdade de expressão. A participação das mulheres, que estão cada vez mais presentes não só no mercado de trabalho, mas em ações sociais e principalmente ambientais, na tentativa de expressar opiniões e se fazerem presente nas discussões sobre a “saúde” do planeta, vem chamando a atenção da sociedade e de órgãos governamentais e dando visibilidade a assuntos que requer a participação e o envolvimento de todos: desenvolvimento sustentável.
A ciência da informação tem uma forte relação com o tema, uma vez que não concentra seu interesse somente nos produtos documentais científicos, mas também em documentos e registros de conhecimento de qualquer origem e relacionados com a comunidade.
A ciência da informação, enquanto campo do saber humano, ocupa-se tanto do fluxo da comunicação como de seus atores e dos registros que transportam a informação e o conhecimento. Não estuda a natureza propriamente física ou social da comunicação, nem investiga os estatutos político e antropológico que a fundam, mas identifica sua mecânica processual e as instituições que dela participam, seus produtos, seus especialistas e usuários, as ferramentas e as técnicas de que se utiliza, procurando compreendê-los enquanto componentes do vasto organismo sistêmico que garante ao homem a satisfação de seu anseio e de sua necessidade de produzir, transformar, utilizar, comunicar, transmitir, enfim, perpetuar o conhecimento (ODDONE, 1998, p. 84).

O projeto de pesquisa intitulado “O PATRIMÔNIO ARQUIVÍSTICO BRASILEIRO EM PERIGO: AÇÕES E OMISSÕES DO ESTADO” tem como objetivo geral compreender as ações e políticas do Estado visando a proteção do patrimônio documental brasileiro, tendo em vista que o documento arquivístico é um instrumento de apoio à administração, à cultura, ao desenvolvimento científico e  elementos de prova e informação ao cidadão, ou seja, é uma fonte informacional de conhecimento para promoção de ações de sustentabilidade cada vez mais fundamentada e organizada pelos movimentos femininos.
Os desequilíbrios ambientais resultantes do crescimento desordenado da sociedade humana e a esgotabilidade dos recursos naturais trazem desafios ao conhecimento dos sistemas econômicos, ambientais e sociais dos quais dependem a manutenção dos recursos e perspectiva de desenvolvimento que são viabilizados e proporcionados por meio de informações organizadas, protegidas e preservadas.
O referido projeto tem um viés pautado na sustentabilidade, ora discutida pelo corpo feminino do evento, uma vez que buscará identificar os gargalos enfrentados pelo Estado na mantença de seu patrimônio informacional que impedem que a sociedade tenha acesso à informação como um poderoso instrumento de transformação social e conhecimento para buscar novas maneiras de entender e viver num mundo cada vez mais carente de ações integradas e sustentáveis, ou seja, ecologicamente correto, economicamente viável e socialmente justo. Protegendo o patrimônio preserva-se a informação e consequentemente o acesso à informação para geração de conhecimento e novas ações.

Referências:

METODOLOGIA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. Brasília, DF, [2012]. Disponível em: >. Acesso em: 07 jun. 2012. Blog destinado a auxiliar nas atividades da disciplina do curso de pós-graduação em Ciência da Informação da UnB.

ODDONE, Nanci Elizabeth. Atividade editorial & Ciência da Informação: convergência epistemológica. Dissertação (mestrado em ciência da informação e documentação) Departamento de Ciência da Informação da Universidade de Brasília, 226 p. Brasília,1998.

SUSTENTABILIDADE. In: Wikipédia. 2012. Disponível em: . Acesso em: 07 jun. 2012.


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¹ Colaboração da minha companheira de orientação Cris Basques.

09 maio 2012

Documento/Monumento

Depois de um longo tempo sem postagens eis que volto! =]

Acabei de ler o último capítulo do livro História e Memória do Jacques Le Goff, intitulado Documento/Monumento e reproduzo aqui um trecho sobre documento e que achei sensacional e que tem grande relação com a minha pesquisa:

"[...] A intervenção do historiador escolhe o documento, extraindo-o do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da sua própria posição na sociedade da sua época e da sua organização mental, insere-se numa situação inicial que é ainda menos "neutra" do que a sua intervenção. O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durantes as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta de esforços das sociedades históricas para impor ao futuro -- voluntária ou involuntariamente -- determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo. Os medievalistas, que tanto trabalharam para construir uma crítica -- sempre útil, decerto -- do falso, devem superar esta problemática, porque qualquer documento é, ao mesmo tempo, verdadeiro -- incluindo talvez sobretudo os falsos -- e falso, porque um monumento é em primeiro lugar uma roupagem, uma aparência enganadora da montagem. É preciso começar por desmontar, demolir esta montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de produção dos documentos-monumento." (p. 538)

LE GOFF, Jacques. Documento/Monumeno. In: ______. História e Memória. 5. ed. Campinas: UNICAMP, 2003. p. 525-541.

02 abril 2012

Destruição da História

Interessante notícia publicada no Jornal da Universidade (acho que do Rio Grande do Sul) e divulgada pela ANPUH no seguinte link: Nossa história está sendo destruída nos tribunais

O artigo denuncia a prática de destruição dos arquivos do poder judiciário e vale a pena ser lido!

A imagem a seguir ilustra o artigo:


12 março 2012

Orientação

Desde a semana passada já sei quem vai me orientar, será a professora Georgete Medleg Rodrigues.

02 março 2012

Seções dos Relatórios

Precisei confeccionar uma tabela para melhor entender a estrutura dos relatórios institucionais, assim, busquei levantar as seções publicadas em cada relatórios, como resultado obtive o seguinte:


As notas são essas:

[1] A partir de 1914, passa a se chamar “Salão de Conferências”.
[2] Há uma variante para “Novo Edificio”.
[3] É chamada de “Serviço de Permutações Internacionaes” a partir de 1911.
[4] É chamada de “1.ª Secção: Manuscriptos”.
[5] É chamada de “2.ª Secção: Estampas e Cartas Geographicas”.
[6] Há uma divisão para Catalogação dentro da seção.
[7] Está nomeado como “Moedas e Medalhas”.
[8] Passa a se chamar “Officinas e Publicações”.
[9] Passa a se chamar “Officinas Graphicas e de Encadernação”.
[10] Este relatório foi confeccionado pelo diretor interino, Dr. Aurelio Lopes de Souza, todos ou outros têm autoria de Manoel Cícero Peregrino da Silva.


PS: Optei por não publicar no 4Shared, por não saber como está a situação com arquivos pessoais.
PS 2: Para melhor visualização abra numa nova guia.

13 fevereiro 2012

Se por um acaso...

Estava lendo o texto "A História, cativa da Memória?: para um mapeamento da memória no campo das ciências sociais" de Ulpiano Meneses e publicada na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 34, p. 9-24, 1992. E algumas considerações do autor - principalmente na parte final do texto - me fizeram lembrar do filme "Uma vida iluminada" (Everything Is Illuminated, 2003).


O filme narra a história de um jovem americano que vai à Ucrânia em busca do passado de seu avô e em seu trajeto vai descobrindo pistas, sinais, vestígios, como bem nos fala Ginzburg, dessa história, até se deparar com uma caixa chamada "Se por um acaso...". Não vou entrar nos detalhes do filme porque ele é muito bom e não merece spoiler, mas, sim, ser visto.

No texto do Ulpiano questiona até quando, especialmente no Brasil, iremos depender do acaso para recuperarmos a nossa memória e história. Porque as grandes descobertas históricas brasileiras de hoje evidenciam a falta de comprometimento com a memória e com a história, assim, vários itens raros e históricos são achados em sacos de lixo (Documentos históricos deixados em sacos de lixo são restaurados em SP) ou em cima de privadas, como cita Ulpiano...

Na verdade sou um defensor do acaso, acho que ele é a melhor parte do pesquisar, afinal ele pode mudar rumos, resolver problemas ou, apenas, ser curioso. Porém, esse acaso ao qual me refiro é muito bem vindo em instituições de cultura e pesquisa - como já mencionei, o acaso me ajudou muito no meu Trabalho de Conclusão de Curso e, de certa forma, tem ajudado no levantamento bibliográfico da futura Dissertação.

Já na parte de preservação e conservação não podemos esperar pelo acaso para que parte da nossa história seja (re)descoberta, pois o acaso pode não chegar e documentos importantes se perderem... Não podemos deixar que nossa história e memória fiquem à merce do acaso ou da boa vontade de alguns, em face do descaso de muitos...

08 fevereiro 2012

IEB: origem e significados

De autoria de João Ricardo de Castro Caldeira, o livro narra em que contexto foi criado o Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Nele são narradas as trajetórias e percursos do Instituto, porém o que mais nos interessa nesta obra é o fato de também mencionar o acervo doado ao Instituto ou por ele comprado como importante ator no seu projeto de polo de referência nas pesquisas sobre o Brasil, no Brasil.

O livro discute como importantes aquisições para a Biblioteca, Arquivo e Museu do Instituto foram determinantes para transformá-lo no maior polo de estudos sobre o Brasil no País.


A figura máxima de tais aquisições foi a do acervo de Mário de Andrade, contando com livros, manuscritos, obras de arte e outros tipos de documento. De certa forma é essa Coleção que determinará o ponto forte de estudos do Instituto, o Modernismo. Assim, no momento de revisitação do Modernismo, sobretudo pelos pesquisadores paulistas, o IEB se fortalece, pois conta com o acervo de um dos maiores expoentes do período.

O que podemos ver é que influências externas afetam os interesses institucionais, suas aquisições moldam seus focos de estudo, e, assim, nos interessa essa relação, sobretudo, no que diz respeito à reflexão de nosso projeto.

PS: apesar da falta de atualizações, já tenho um bom material levantado sobre a pesquisa e espero comentá-los em breve! =]

15 dezembro 2011

Passei! =]

Ontem fiquei sabendo que passei na seleção do mestrado!

E agora??? Agora tenho que me planejar, afinal 2 anos passam voando!!!

=D

29 setembro 2011

Desejo de Memória e Desejo de Esquecimento

Ontem assisti na aula de Memória e Informação o filme "Uma cidade sem passado" (Das Schreckliche Mädchen).


Sua protagonista chama-se Sônia. Ela, de uma tradicional família católica alemã, sempre viveu no meio religioso, tendo estudado em um colégio para meninas onde seu pai lecionara e sua mãe havia lecionado, onde também, seu tio era padre.

A personagem tem sua vida transformada quando, como ganhadora de um concurso literário do governo alemão é apresentada aos temas do novo concurso, optando pelo "Minha cidade durante o III Reich". Curiosa, Sônia decide pesquisar sobre, mas esbarra em aspectos burocráticos e referentes a propriedade privada etc, que não permitem que ela sequer comece a sua pesquisa, tendo no máximo vestígios sombrios da época.

A relação que ela busca estabelecer é de como sua cidade manteve-se neutra durante a II Guerra, e como ali os judeus não foram "caçados". Porém, seu tempo esgota-se e ela tem que desistir de sua pesquisa...

Entretanto, alguns anos depois, mesmo casada e com filhos, Sônia retoma essa ideia e volta a pesquisar o tema, porém, as mesmas barreiras de antes surgem, contudo ela não desiste e passa a lutar contra todos para ter acesso ao arquivo que possibilitará a sua pesquisa. O arquivo pessoal do prefeito à época do III Reich.

Contudo, é importante esclarecer que quando falo todos, digo que Sônia passa a enfrentar a Igreja, pois seus membros tem envolvimento direto com o passado que ela busca revelar, a família, pois seu marido e seus pais opõem-se a tal pesquisa, além do Estado, que muda leis, cria empecilhos e acaba por não permitir o acesso ao arquivo que ela tanto ambiciona.

Sob tais aspectos o filme é fabuloso, ao mostrar a evolução de Sônia, de uma menina de cabelos longos e ar inocente até a mulher decidida, que casa-se com o professor, tem os cabelos curtos e ousa nadar totalmente nua, na minha visão, a maior expressão de sua libertação.

Se Sônia é figura em evolução, por outro lado, temos o Arquivo, instituição engessada, sujeita à vontades políticas e a mandos e desmandos, servindo ao Estado e à Igreja na tentativa de proteger a população da cidade das revelações que aquele arquivo poderia trazer. Assim, temos imagens jogadas sob o fundo verde (chroma key) do interior de arquivos, talvez representando que ele está ali, mas não pode ser acessado. O Arquivo inclusive, mesmo com a vitória de Sônia nos tribunais, a impede de usá-lo porque, segundo eles, os documentos foram perdidos, ou estão emprestados, ou estão em péssimo estado, ou... ou...

Com o desenrolar do filme e contando com a "sorte", como ela mesma diz, Sônia consegue consultar o arquivo que deseja e finalmente pode revelar à cidade os fatos (repare que não falo em verdade, mas sim em fatos, pois são coisas distintas).

Assim, Sônia consegue lançar seu livro onde revela os fatos de acordo com as informações colhidas no acervo do ex-prefeito, porém, sua batalha fora longa e recheada de ameaças, pois muitos dos envolvidos no caso ainda estavam vivos, sendo inclusive agredida e quase morta. Tal fato me faz lembrar a discussão sobre a abertura dos arquivos da ditadura pelo governo brasileiro, assunto de post no meu blog, clique aqui e aqui. Onde a situação de ter envolvidos vivos parece ser preponderante na discussão, o agravante é o fato de eles ainda atuarem politicamente, bem como no filme...

Bom, já em se final, o filme nos reserva cena chave, onde Sônia recusa-se a aceitar que um busto seu, feito para homenageá-la, fosse exposto na prefeitura, chocando a todos que acompanharam a pesquisa da jovem, afinal, o que é maior do que ter a sua imagem lançada a eternidade? Mais uma vez, a personagem revela-se sensacional, pois ao quererem engessá-la, como fizeram com o Arquivo, ela se nega, pois, na minha visão, ela não queria ser um lugar de memória, na noção passada por Pierre Nora, mas sim, apenas, uma pesquisadora, uma historiadora em busca de fatos e não de verdades, pois se ela fosse engessada pelo busto, nada mais teria a fazer, senão viver dessas glórias, desse monumento...

O filme é sensacional, entretanto, é a sua personagem principal quem mais me chama a atenção, pois Sônia é o retrato da evolução, do questionamento. A menina religiosa e de cabelos longos, casa-se com o professor bem mais velho, tem filhos e lhe dá nomes judeus, volta a estudar, porém é nomeada doutora por diversas universidades sem ter concluído a faculdade, graças ao livro resultado de sua pesquisa. Separa-se em prol de sua pesquisa, torna-se fumante e por fim, aparece sua imagem nadando nua, numa espécie de libertação de costumes, de construção de um novo eu a partir de novas memórias, de novas identidades.

Sônia, assim, seria o retrato do pesquisador, descontente com "as verdades", questionador por natureza... E mesmo depois de tantas transformações, o desfecho do filme se dá no local mais sagrado e emblemático da cidade, a árvore onde preces são depositadas e onde Sônia sempre buscou força nos momentos difíceis, talvez por ali ser um resquício da época do III Reich, uma testemunha muda da história, portador das memórias daquele povo...

21 setembro 2011

Preservar para não repetir?

Li duas matérias bem interessantes sobre a mesma temática: preservar ou não as construções Nazistas?

Os link são:

Hitler's Atlantic Wall: Should France preserve it?

Uma montanha bávara à sombra de Adolf Hitler

Acredito que o debate deva acontecer, principalmente pela sombra nazista assolar até hoje a sociedade. Porém, creio que, como diz o Projeto do Arquivo Nacional - Memórias Reveladas, devemos preservar ou contar "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça". Assim, a preservação de lugares de trauma também é uma forma de manter presente a história que não queremos lembrar, mas que é imprescindível na construção da sociedade, do social.

22 agosto 2011

Coleção de Memórias

Alguém já se deu conta de que quase toda biblioteca tem uma coleção de referência, uma coleção de periódicos, uma coleção de obras raras e por aí vai? Mas se eu te dissesse que toda biblioteca deveria ter uma Coleção de Memória você saberia me dizer o que isso significa?

Bom, na minha visão, uma Coleção de Memória seria a coleção que arrola toda a documentação referente à história da biblioteca - nela estarão os antigos livros de tombo, catálogos, cadastros de usuários, controles de empréstimo e devolução, inventários e, claro, relatórios.

Nas Coleções de Memória a biblioteca coleciona a si mesma, para que sua história possa ser recontada, até mesmo quando ela não mais existir. Quer um exemplo? Darei dois...

Quando estagiava na Divisão de Manuscritos, dois importantes itens das Coleções de Memória de outras duas bibliotecas eram consultados. Explico: a Biblioteca Fluminense e a Biblioteca do Conde da Barca, foram duas das diversas bibliotecas incorporadas pela Biblioteca Nacional - afinal, como citei no meu Trabalho de Conclusão de Curso, as bibliotecas são colecionadoras, inclusive de outras bibliotecas - bom, os catálogos dessas duas antigas bibliotecas eram bastante procurados por pesquisadores, com as mais diversas finalidades, desde saber a procedência real de um livro, até recriar a história de tais coleções. Ou seja, os pesquisadores buscavam a memória dessas bibliotecas.

Então, ao manter preservados tais itens, quer dizer, ao criar uma Coleção de Memória, a biblioteca busca, como toda vez que colecionamos algo, se perpetuar através de tais registros ou relatos de memória.

Assim, nosso projeto acaba por investigar um dos aspectos de perpetuação da memória da biblioteca, que é a confecção de relatórios, mas nada nos impediria de trabalhar também com listas de inventários, livros de tombo, correspondências enviadas e recebidas etc, afinal diversos são os meios de perpetuação da memória.

Obs.: Achei que essa seria uma forma legal de explicar com o que eu trabalho no projeto e como pode ser importante manter tais registros.

02 agosto 2011

Coleção Ernesto Senna: A Construção de Uma Memória

Como tinha falado anteriormente, meu Trabalho de Conclusão de Curso tinha sido publicado nos Anais da Biblioteca Nacional, volume 128. Agora, apresento a vocês a versão digital que está no site da Biblioteca Nacional, basta clicar aqui.


25 julho 2011

A ciência na política*

Objetivando construir uma reflexão sobre a ação política no projeto de pesquisa que tenho construído discutirei alguns pontos nas próximas linhas, tendo como ponto de partida a reflexão de Nogueira (apud TOMANIK, 2009, p. 91), de que

[...] as ciências humanas [...] ainda que tenham por objeto real ou sensível os indivíduos humanos, com seu substrato orgânico, têm por objetivo formal certos fenômenos engendrados pela convivência humana e pela capacidade especificamente humana de simbolização.

Podemos chegar à conclusão, a partir de tal trecho de que a memória é uma representação social criada pelo homem, ou seja, um conjunto de símbolos, tradições, representações etc. Podemos perceber isso mais claramente ao pensarmos que a maneira mais comum de tornar a memória presente é erguer um monumento, pois dessa forma criamos um símbolo para sempre lembrar. Contudo, a maneira de se guardar, preservar e se lembrar de uma memória não acontece de forma tão inocente. Porém, antes, é melhor entendermos o que é memória.

Desde os Gregos, segundo Vernant (1973), o fenômeno memoralista faz parte do cotidiano, tanto que existia uma Deusa da Memória, Mnemosyne, cuja função era “revelar o que foi e o que será” (VERNANT, 1973, p.79). Nesse sentido a “[...] rememoração não procura situar os acontecimentos num quadro temporal, mas, atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual saiu o cosmo e que permite compreender o devir em seu conjunto” (idem, p. 76-77). Assim, “O ‘passado’ é parte integrante do cosmo; explorá-lo é descobrir o que se dissimula nas profundezas do ser. A História que canta Mnemosyne é um deciframento do invisível, uma geografia do sobrenatural”.

O que nos leva a definição de Pomian (2000, p. 508), de que

A ‘memória’ é, em suma, o que permite a um ser vivo remontar no tempo, relacionar-se, sempre mantendo-se no presente com o passado [... Pois] entre o presente e o passado interpõem-se sinais e vestígios mediante os quais – e só deste modo – se pode compreender o passado; trata-se de recordações, imagens relíquias.

Dada tais definições e tendo em vista que a vertente mais explícita de nosso projeto é a Memória, não podemos achar que ela não se constitui numa decisão política. Pois ela, a memória, geralmente, representa o grupo dominante, ou vencedor, no caso de batalhas. Não por acaso, geralmente a história contada pelos “perdedores” ou por setores marginalizados pela sociedade só são acessíveis diante de atitudes individuais de preservação e não por atitudes do Estado e suas instituições.

Não é a toa que numa guerra o apagamento da memória do perdedor será sumário, não é leviano o fato de o exército brasileiro ter confiscado os documentos do Arquivo Nacional do Paraguai durante a Guerra, no século XIX. Não é a toa que os Estados Unidos bombardearam a Biblioteca Nacional do Iraque, em Bagdá, nada mais do que com o intuito de apagar, não deixar rastros para a reconstrução, ou se essa for possível, que seja incompleta.

E o mais curioso nessa relação de lembrar/esquecer é que por serem os arquivos, museus, bibliotecas e monumentos os locais de celebração e preservação da memória – “lugares de memória”, de acordo com Nora (1993) –, essas são as instituições que mais sofrem com a censura e destruição. Não foi por acaso que a Biblioteca de Alexandria foi destruída e reconstruída sucessivas vezes.

Observando com ainda mais atenção o escopo do nosso projeto, podemos verificar que a escolha do período englobado pelos Relatórios Institucionais da Biblioteca Nacional, a ser analisado – entre 1905 e 1914 – não foi por acaso, afinal, eu, enquanto pesquisador e influenciado pelo meu meio social, os escolhi.

Além do mais, ao verificar que tal período pode refletir, através da Biblioteca e de suas políticas de formação e desenvolvimento de sua coleção, o ideário dos dirigentes da instituição e do país de criar uma imagem de cultura e de urbanização do Brasil diante das outras nações, para tanto, um novo prédio foi projetado e construído. Com arquitetura magnífica e compondo um dos cenários mais significativos da paisagem carioca, tal edifício foi construído na recém inaugurada Avenida Central – projeto de Pereira Passos de urbanização e higienização da cidade, baseada em aspectos da arquitetura Parisiense – e em conjunto com o Theatro Municipal, a Câmara Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça federal forma a tão famosa Cinelândia. Logo, o ideal de cultura e erudição reflete os aspectos de civilidade que os dirigentes desejavam que o mundo enxergasse no Brasil.

Assim, ter uma Biblioteca Nacional, cuja missão é preservar a memória do país, e que efetivamente cumprisse tal papel e tivesse um acervo raro e valioso é importante para que tal ideal se cumpra. Por consequência, enriquecê-lo é um dos meios para se alcançar tal objetivo e, por que não, preservar a memória dos 'escolhidos'. Atrevo-me a dizer que, na minha experiência na Biblioteca Nacional, cheguei à conclusão de que seu acervo é republicano e abolicionista. Mas basta um olhar mais atento para verificar que suas coleções mais importantes são incorporadas num momento de afirmação da república brasileira, onde a todo custo tentam fortalecê-la, diante da ainda ameaça dos monarquistas, no final do século XIX e início do século XX.

Nessa acepção, Halbwachs (2006) nos fala que a memória, apesar de individual, constitui-se num reflexo do coletivo, logo a memória é uma construção coletiva de grupos, sejam eles dominantes ou não, porém a memória que existe para a história oficial, será quase que invariavelmente, a dos grupos dominantes.
E mais, a biblioteca, sendo um local de pesquisa, e ao refletir tal interesse, só poderá oferecer ao seu público, obras, documentos, imagens que reflitam esse ideal e assim, provavelmente, os relatos e pesquisas que teremos serão nada mais do que confirmações do desejo dominante, desta forma, se a política não dita o que um projeto irá pesquisar, ela pode ditar ao que ele terá acesso e como terá acesso.

Sob esse prisma, basta entendermos que uma biblioteca é constituída de políticas, sejam elas de seleção, de acesso, de descarte, enfim que ela tem normas consagradas em sua prática de gestão que dirão a que público ela se direciona, o que ele encontrará ali e como ela poderá usufruir dos produtos e serviços oferecidos. Tais normas, regulamentos ou, simplesmente, políticas, constituem-se em ações baseadas no interesse e missão dos mais diversos segmentos sociais.

Logo, se missão de uma biblioteca nacional é salvaguardar a memória daquele país para que ela possa, de forma poética, ecoar no tempo futuro, para que se conheça o como foi, entenda o como é e, talvez, sirva de projeção para o como será, nada mais coerente do que se guarde o desejo de memória do governante ou do dominante. Assim, a memória será sempre fruto da tensão entre o lembrar e o esquecer, fruto das disputas pelo poder e pela afirmação do poder vigente. Não fosse assim, talvez não seria possível a reconstrução do passado de forma tão próxima ao que aconteceu, mas nunca de forma ampla, refletindo apenas o geral, o que foi mais representativo nos meios sociais.

REFERÊNCIAS

HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva e memória. In: ______. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006. p. 26-70.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Proj. História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez, 1993.

POMIAN, K. Memória. In: GIL, Fernando (coord.). Sistemática. Porto: Imprensa Nacional: Casa da Moeda: 2000. p. 508. (Enciclopédia Einaudi, 42)

TOMANIK, Eduardo Augusto. O que é ciência?: a ciência no discurso do cientista. In: _____. O olhar no espelho. Maringá: EDUEM, 2004. p. 55-114.

VERNANT, Jean-Pierre. Aspectos míticos da memória e do tempo. In: _____. Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. São Paulo: Difusão Européia do Livro; EDUSP, 1973. p. 71-97.

* Esse post é o opinion paper apresentado como trabalho final na parte da disciplina Metodologia de Pesquisa em Ciência da Informação ministrada pela professor André Ancona.

20 julho 2011

Biblioteconomia, 100 anos

Semana passada a criação do primeiro curso de Biblioteconomia no Brasil fez 100 anos.

Veja a postagem que fiz no Poeira de Biblioteca: http://poeirab.blogspot.com/2011/07/100-anos-de-biblioteconomia-no-brasil.html

Criação e não efetivo funcionamento, OK? Por isso meu projeto vai até 1915!

Pausa, revisão!

Bom, encerrada a disciplina Metodologia de Pesquisa é hora de fazer um apanhado geral sobre o meu projeto a partir da disciplina.

Ele, na comparação com o que era e o que se tornou não sofreu grandes mudanças, os objetivos ficaram os mesmos porém de forma mais clara, tendo em vista que faz parte da produção do conhecimento se fazer entender da melhor forma possível. Ainda nesse sentido, foi feita a mudança no título do projeto (aliás, ele é o título do Blog). Outra mudança foi o encurtamento do período a ser pesquisado, passando de 20 anos para 11, tendo como marcos teóricos o lançamento da Pedra Fundamental do novo prédio da Biblioteca (1905) e o efetivo funcionamento do curso de Biblioteconomia (1915) - sim, são onze anos, pois trabalho com o relatório de 1905, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14 e 15, logo...

Porém, talvez a mudança mais significativa esteja nas entrelinhas do projeto, de entendê-lo melhor. Assim, o projeto teve sua parte escrita aperfeiçoada, se fazendo mais claro e preciso.

 Também entendê-lo como fruto do meu social, dos meus desejos e, sobretudo, perceber que um projeto sempre terá no seu escopo o seu pesquisador, me permitiu ficar mais a vontade com algumas idéias que tenho, que mesmo que não entrem no projeto diretamente, podem ser úteis para melhor executá-lo.

Assim, ter a visão da dimensão política do projeto me ajudou a buscar melhores formas de fazê-lo e comunicá-lo aos meus pares, aliás, função essa que esse blog que vos "fala" tem - a troca de informações, as críticas, as interações.


Assim, essa pequeno relato não visa esclarecer mais sobre o projeto, mas sim, fazer um balanço sobre como estamos e como prosseguiremos. E agora percebo que o que fiz foi um relatório... =]

21 junho 2011

Arquivo Institucional ou Coleção?

Lendo um post no Blog de Diplomática do professor André Ancona (link aqui), achei uma tarefa proposta no qual ele pede que se discuta, entre outras questões, as diferenças entre Arquivo Pessoal e Coleção, achei interessante dar uma adaptada à questão e discutir a diferença entre Arquivo Institucional e Coleção.

No meu primeiro post aqui (O Começo) falei que no meu Trabalho de Conclusão de Curso investiguei as práticas colecionistas, analisando-as tendo como objeto a Coleção Ernesto Senna. Pois bem, tendo diversas definições do que seria Coleção, podemos dizer que num panorama geral, colecionar é formar um agrupamento lógico (ao menos para o colecionador) de objetos que lhe são caros sentimentalmente e que tem ligação estreita com a sua memória, pois ao mesmo tempo os objetos são itens de coleção, eles são "máquinas do tempo" no sentido de trazerem à tona recordações.

Dessa forma temos as definições de Pomian (1997, p. 53), de que Coleção é “[...] qualquer conjunto de objetos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, sujeitos a uma proteção especial num local fechado preparado para esse fim, e expostos ao olhar do público”.

Já para Benjamin (2006, p. 239) “Colecionar é uma forma de recordação prática de todas as manifestações profanas da ‘proximidade’, a mais resumida”.

E por fim temos Baudrillard  (1989, p. 94) que diz que o "[...] objeto puro, privado de função ou abstraído de seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção. Cessa de ser tapete, mesa, bússola ou bibelô para se tornar ‘objeto’. Um belo ‘objeto’ dirá o colecionador e não uma bela estatueta".

Nesse sentido, os objetos de coleção são o meio de recordação do passado, sem sair do presente, remetendo o colecionador à uma "constelação histórica criada por ele próprio, revelando conexões entre coisas que guardam correspondência” (PERRONE; ENGELMAN, 2005, p. 86).

Tá, se já sabemos o que é Coleção, cabe ressaltar que na Coleção Ernesto Senna, eu tinha um misto de Arquivo Pessoal e Coleção no sentido de que ele incorporou à segunda documentos sobre sua vida, sua atividade como jornalista e correspondências pessoal, ouso dizer que ele colecionou suas relações pessoais, materializadas pelas cartas, cartões, dedicatórias e autógrafos (no sentido de assinaturas) que conseguia. Porém, ao incorporar-se à Coleção, como na fala de Baudrillard, perde sua função primeira e torna-se um objeto de Coleção.

No contexto das bibliotecas, Coleção diz respeito ao acervo, e geralmente é usado para denominá-lo. No trabalho, posiciono a biblioteca como uma colecionadora, mas o assunto, no momento não nos importa.

Dito isso, vamos nos ater agora ao que seria um Arquivo Institucional (observando que ainda não temos tantas definições como no caso das Coleções, tendo em vista que o primeiro é um trabalho concluído e o segundo é um trabalho em fase de desenvolvimento).

O Arquivo Institucional, seria, na minha visão, o resultado as práticas de gerência e administração das instituições. É formado, bem como os acervos pessoais, de documentos, relatos, obras que dizem respeito à instituição e à sua história. São, documentos oficiais e extraoficiais que são acumulados ao longo dos anos, tendo como seus autores os representantes da instituição naquele momento, ou seja, seus funcionários.

No caso do Arquivo Institucional da Biblioteca Nacional, temos uma contradição, pois na Biblioteca o Arquivo Institucional é chamado de Coleção Biblioteca Nacional, talvez por ser o termo Coleção mais caro (ou menos estranho) às bibliotecas do que o termo Arquivo. Assim, a Coleção Biblioteca Nacional, entendida como o Arquivo Institucional da Biblioteca, arrola comunicados internos, registros de usuários, livros de tombo, relatórios, matérias veiculadas na imprensa sobre a instituição e, por mais insólito que pareça, alguns objetos tridimensionais, como a pá usada no lançamento da pedra fundamental do novo prédio ou a bala de revólver que atingiu o gabinete da presidência durante na década de 1990, durante uma perseguição na rua México, que fica atrás da Biblioteca, acompanhado desta está uma reportagem,  se não me engano do Jornal do Brasil, sobre o fato. Questionáveis ou não, tal prática contribuí, ao que parece, para que a história da instituição seja preservada.

Assim, talvez, a diferença entre Arquivos Institucionais e Coleção não possa ser tão aparente, talvez o objetivo da sua construção seja o maior diferencial, pois a Coleção envolve o gosto pessoal, sem se importar com as consequências disso, que pode ser ou não a preservação da memória do colecionador ou até mesmo do seu meio social, porém tal fator, na maioria das vezes, é secundário. Já um Arquivo Institucional, parece ter sido criado com o objetivo de preservar a memória da instituição, para que no futuro sua história possa ser recontada, assim, a instituição é contada pela própria instituição e seus representantes (funcionários, servidores, estagiários, colaboradores etc).

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Referências:

BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1989. p. 93-114.

BENJAMIN, Walter. O colecionador. In: ______. Passagens. Belo Horizonte: Editora da UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006. p. 237-246.

PERRONE, Cláudia Maria; ENGELMAN, Selda. O colecionador de memórias. Episteme, Porto Alegre, n. 20, jan./jun. 2005. Disponível em: <link>. Acesso em: 20 dez. 2008.

POMIAN, Krzstof. Coleção. In: GIL, Fernando (org.). Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1997. p. 51-86. (
Enciclopédia Einaudi, v. 1).

E a informação?

Tá, tudo muito legal, tudo caminhando, mas se a idéia é o desenvolvimento de um projeto na área de Gestão da Informação, onde a tal falada informação está no meu projeto? Afinal, eu só falei basicamente de memória até o momento...

Nesse sentido, entendo que a informação está presente no projeto em alguns aspectos, são eles:

-Os relatórios nada mais são do que a compilação de informações sobre as ações da Biblioteca Nacional num determinado período de tempo, arrolando informações relativas ao seu acervo, número de consultas, número de usuários etc. Eles são confeccionados para que a Biblioteca mostre ao Ministério à qual está subordinada, suas ações e provavelmente foi publicado como um meio de legitimação de seu conteúdo e também no sentido de prestar contas à população. Logo, podemos entender que os relatórios são um meio de prática comucicacional das informações institucionais;


- A idéia de preservação da informação, pois a construção de uma série documental de relatórios institucionais pode presumir que os mesmos serão consultados no futuro e podem servir de base para tomada de decisões ou entender porque algumas decisões foram tomadas. Assim, as informações ou dados ali registrados poderão ser úteis num momento futuro, tendo a idéia de que se eu registro, eu preservo como norteadora. Assim, tais dados estariam assegurados por algum tempo no percurso da história da sociedade.

17 junho 2011

Ainda sobre o "por quê?"

Talvez também seja interessante refletir sobre a idéia de Peter Burke, no livro "Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot", que nos fala, ao discutir as bibliotecas da antiguidade, o seguinte:

Bibliotecas que sobreviveram nos permitem estudar a “arqueologia do conhecimento” no sentido literal da famosa expressão de Foucaut, examinando os vestígios físicos de antigos sistemas de classificação. Os catálogos das bibliotecas públicas e privadas, e a organização das bibliografias (que eram apresentadas na forma de bibliotecas imaginárias, usando muitas vezes os títulos Bibliotheca), seguiam frequentemente a mesma ordem, com poucas permutações e modificações. (p.88)



Seguindo tal idéia, o resultado poderá ser uma espécie de “arqueologia das bibliotecas”, onde através de relatos institucionais, podem ser resgatados fatos da história e memória institucional, pois a idéia de revirar a o Arquivo Institucional em busca de informações sobre a história da instituição, nos remete à figura tradicional do arqueólogo escavando os restos de civilizações, em busca de fragmentos que possam reconstruir, ao menos, uma parte daquela.

15 junho 2011

Por quê?

Creio que a pergunta mais difícil ao se fazer um projeto de pesquisa é por que fazê-lo? Penso que pela perguntar envolver questões pessoais e científicas é muito difícil respondê-la, mas tentarei.

Bom, inicialmente preciso esclarecer que penso mais ou menos como Tanno (2007), no seu artigo "Os Acervos Pessoais: Memória e Identidade na produção e guarda dos registros de si" no qual ela diz que estudar a micro história ajuda a desvelar a macro história. Sendo assim, estudar as instituições, pode ajudar a entender melhor a história do país. No meu caso, entendo que pesquisar sobre a história da Biblioteca Nacional, através de seu acervo, ajuda a entender o contexto social e político da época adotado na instituição.

Desta forma, acredito que investigar o modo de construção da Coleção da Biblioteca Nacional evidenciará o intuito de modernização do país, onde a cultura (ter uma Biblioteca Nacional valiosa parece primordial) e a civilidade (urbanização da então Capital Federal, o Rio de Janeiro, tendo como expoente máximo a Avenida Central, atual Rio Branco - coincidência ou não, local onde o novo prédio da Biblioteca foi construído) servem de marco para tal comparação. Ainda mais se observarmos que essa foi uma época de profundas transformações na estrutura administrativa da Biblioteca, e reorganização do seu acervo acervo num novo prédio, além da criação do primeiro curso de Biblioteconomia da América Latina.

Nesse contexto, de resgate, a acepção de memória dada por Pomian norteia o trabalho, pois para ele

A ‘memória’ é, em suma, o que permite a um ser vivo remontar no tempo, relacionar-se, sempre mantendo-se no presente com o passado [... Pois] entre o presente e o passado interpõem-se sinais e vestígios mediante os quais – e só deste modo – se pode compreender o passado; trata-se de recordações, imagens, relíquias.” #1.

Aliada à essa idéia temos a de Ginzburg, que diz que

Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” #2.

Sendo assim, entendo os relatórios como recordações da gerência e administração institucional, mal ou bem comparando-os aos diários pessoais, onde podemos encontrar fatos da vida das pessoas e nos permitem inclusive reconstruir a sua vida, fazer a sua biografia.

Assim, a idéia do que seja a Memória Institucional oferecida por Thiesen nos é bastante cara, pois para ela

A memória institucional [...] Na perspectiva do tempo, seria o retorno reelaborado de tudo aquilo que contabilizamos na história como conquistas legados, acontecimentos, mas também vicissitudes, servidões, escuridão” #3.

Em suma, a Memória Institucional seria o resgate da trajetória - entendida aqui como percurso - da instituição na sociedade e em si mesma, pois além de ser construída por aspirações da sociedade, a instituição parece ser construída de dentro para fora também, a partir de seus funcionários e gestores.

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#1 POMIAN, K. Memória. In: GIL, Fernando (coord.). Sistemática. Porto: Imprensa Nacional: Casa da Moeda: 2000. p. 508. (Enciclopédia Einaudi, 42)
 
#2 GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: ______. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 177.

#3 COSTA, Icléia Thiesen Magalhães. Memória institucional: a construção conceitual numa abordagem teórico - metodológica. 1997. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) - CNPq/IBICT-UFRJ/ECO, Rio de Janeiro. Orientadora: Maria Nélida González de Gómez.